A Era De Ouro

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sábado, 22 de agosto de 2015

Thomas More e Thomas Wolsey – Fidelidade Religiosa versus Corrupção!

Cardeal Wolsey e Thomas More
Em Behind The Scenes da primeira temporada da série The Tudors o autor, Jonathan Rhys Meyers, que interpreta Henrique VIII, é entrevistado pela SHOWTIME e uma das perguntas diz respeito a Thomas More e Thomas Cardeal Wolsey.
  • Veja trechos do seriado mostrando de forma resumida o conflito de Thomas More e Wolsey:
SIR THOMAS MORE
Em linhas gerais, Thomas More foi homem de estado, diplomata, escritor, advogado, homem de leis e vale dizer que é considerado um dos grandes humanistas do Renascimento. More ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 15291 a 1532, o cargo de “Lord Chancellor” (Chanceler do Reino – o primeiro leigo em vários séculos) de Henrique VIII. Devido a sua fidelidade extrema à Igreja católica, Thomas negou reconhecer Henrique VIII como cabeça da Igreja da Inglaterra, tendo como decisão manter silêncio sobre o assunto. Convém ressaltar que tamanha fidelidade de More é considerada pela Igreja Católica um modelo de fidelidade à Igreja e à própria consciência, e também representa a luta da liberdade individual contra o poder arbitrário. A morte de Thomas por decapitação ordenada por Henrique VIII foi considerada uma das mais graves e injustas sentenças aplicadas pelo Estado contra um homem de honra. Pode-se dizer que a morte injusta de Thomas como centenas de outras decapitações de pessoas inocentes foi um resultado de uma atitude despótica e de vingança pessoal do rei.
Thomas More por Hans Holbein, o Jovem (1527)
Thomas foi condenado “a ser suspenso pelo pescoço” e cair em terra ainda vivo. Depois seria esquartejado e decapitado. Interessante dizer que,em atenção à importância do condenado o rei, “por clemência”, reduziu a pena a “simples decapitação”. Thomas ao ficar ciente disto, comentou:
Não permita Deus que o rei tenha semelhantes clemências com os meus amigos.” No momento da execução suplicou aos presentes que orassem pelo monarca e disse que “morria como bom servidor do rei, mas de Deus primeiro.
Vá fundo e assista ao vídeo de sua execução:
JONATHAN: Acho que More conhecia Henrique desde pequeno. Quando ele era garoto. Talvez tenha sido seu tutor. Não sei se foi seu tutor ou não. Henrique olhava para more como a figura do irmão mais velho que ele não teve. Ele era um homem culto. Sua lealdade nunca foi questionada. Seus sensos morais eram corretos. Seu senso de propriedade era presente. E Henrique o admirava. More representava todo o bem do mundo em vários sentidos. Mas tome cuidado ao pensar no que more é. Porque more tem seus próprios demônios. Qualquer um que pense que tem que existir em profunda lealdade tem medo de algo ou está combatendo algo. Já Wolsey é completamente diferente.
Jonathan Rhys Meyers como Henrique VIII e Jeremy Northan como Thomas More
CARDEAL THOMAS WOLSEY
Cardeal Thomas Wolsey foi um poderoso estadista, cardeal da coroa e Lord Chanceler da Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII. Wolsey conheceu o rei quando trabalhava como capelão pessoal ao governador de Calais. Tornou-se capelão do rei e mais tarde decano de Lincoln. O seu poder cresceu quando o Henrique subiu ao trono, e ao ser nomeado cardeal, organizou o Campo do Manto do Senhor cerca de cinco anos depois, como propósito de fazer as pazes com a França. Em 1523 foi designado bispo-príncipe de Hampton e teve um grande poder que não servia aos nobres da corte.
Henrique VIII e Wolsey por Sir John Gilbert
Henrique queria se divorciar de Catarina de Aragão desesperadamente para poder se casar com Ana Bolena, porém, convém ressaltar que o Papa, os parentes de Catarina e Wolsey, principalmente, não quis apoiar a separação. Diante de tal situação, Wolsey desagradou o rei, que o tornou inimigo também de Ana e todo o seu poder e adornos foram destruídos. Wolsey permaneceu arcebispo de York, mas em Yorkshire foi acusado de traição, sendo assim chamado de volta a Londres e morreu no caminho em 1530. Vale lembrar que esta, como qualquer outra parte da história é apenas uma das diversas versões existentes. No seriado, após Wolsey ser acusado de traição, o rei manda prendê-lo e, após uma conversa com Deus, uma confissão, o Cardeal tira sua própria vida cortando o pescoço.
Cardeal Thomas Wolsey – Christ Church (1526)
JONATHAN: Wolsey não tem escrúpulos. Wolsey é corrupto, e Henrique não precisava ser. Wolsey fica muito rico. Ele constrói Oxford. Seu ultimo grande ato é construir Oxford, e é um belo último ato. Ele era muito rico, tinha muito poder e uma amante. Acho que teve dois filhos. Posso estar errado, mas acho que sim. E ele cometeu um erro. E seu erro não foi o de obter a separação para Henrique, mas o de prometer algo que não podia dar. Henrique não teve escolha, senão livrar-se de Wolsey. Wolsey ficou encurralado de um jeito que não podia sair. E quando Roma (a Igreja, o Papa) não concordou com o divorcio de Henrique com Catarina, Wolsey fracassou com ele, de acordo com sua promessa. Mas de forma extraordinária perto da morte de Wolsey,Henrique encontrou-se com ele. Ele estava num banquete, e Henrique o acompanhou até a janela. E a ultima vez que foram vistos juntos, eles estavam rindo e fazendo piadas, como velhos amigos. Então, havia esse elemento. Ele é/era muito ligado ao Wolsey. Muito ligado e também o admira. Ele não se refere a ele de forma negativa como acontece com Richard Burton e Anthony Quayle. O relacionamento deles. E eu e Sam somos diferentes. Richard Burton tinha esse lance… Ele sempre o chamava de “vigário do inferno” e exibia sua corrupção. Mas eu interpreto diferente e exalto sua lealdade mesmo sabendo que ele é corrupto. Henrique não é bobo. Ele sabe que o que Wolsey faz é legítimo. Mesmo que o rei não queira puni-lo por traição, isso acontece. Porque Wolsey o fez de bobo. E um rei não pode ser feito de bobo.
Wolsey (Sam Neill) e Henrique VIII (Jonathan Rhys Meyers)

Charles Brandon – 1º Duque de Suffolk



brandon
Nascimento: 1484.
Consorte: Maria Tudor, Rainha da França (irmã de Henrique VIII).
Morte: 24 de Agosto de 1545.
Títulos: Duque de Suffolk.
Filho de Charles Brandon de mesmo nome, morto vítima da doença do suor malígno.
Filho de Charles Brandon de mesmo nome, morto vítima da doença do suor malígno.
Foi filho de William Brandon, porta-bandeira de Henrique VII , que foi morto por Ricardo III em pessoa em no campo de batalha de Bosworth. Charles Brandon foi educado na corte de Henrique VII. Ele é descrito por Dugdale como “uma pessoa agradável, de estatura alta, e de grande coragem e conformidade à disposição para o rei Henrique VIII”, de quem tornou0se um grande favorito. Ele obteve uma série de cargos reais, tornando-se Mestre da cavalaria em 1513, além de receber valiosas doações de terra.
Em 15 de Maio de 1513, foi condecorado Visconde Lisle, após ter celebrado um contrato de casamento com a dama, Elizabeth Grey, Viscondessa Lisle em seu próprio direito, que no entanto, recusou-se a casar-se com ele após atingir a maioridade. Distinguiu-se nos cercos de Terouenne e Tournai na campanha francesa de 1513. Um dos agentes de Margarida de Sabóia, governante dos Países Baixos, por escrito, lembrou-a de que Lord Lisle foi como um segundo rei e aconselhou-a a escrever -lhe uma carta gentil. Neste momento Henrique VIII, pediu secretamente que Magaret se casasse com Brandon, a quem ele condecorou Duque de Suffolk, ele teve o cuidado de negar ( 04 de março de 1514 ) qualquer cumplicidade no projeto do Imperador Maximiliano I (pai de Margaret). A própria regente, deixou um curioso relato à respeito de tal processo.
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Charles Brandon com sua esposa Maria Tudor – Rainha da França.
Brandon participou das justas que celebraram o casamento de Maria Tudor, irmã de Henrique, com Luís XII da França. Brandon havia sido chamado para negociar várias questões com Luís, e em sua morte, foi enviado à França para saudar o novo rei Francisco I. Um afeto entre Luís e a então viúva Rainha Maria, parece ter  subsistido desde antes de seu casamento com o falecido rei francês, e Francis persistentemente, demonstrou a ele, suas intenções em desposá-la. Naquele momento, Francis ainda era casado com Claude, e seu interesse em desposar a viúva, talvez tenha sido apenas por esperança de que sua esposa viesse logo a falecer. Maria prontamente lembrou-o de que havia depositado-lhe sua amizade e confiança, a fim de evitar futuras importunações por parte do novo monarca. Henrique demonstrou uma atitude amigável referente a uma possível união entre sua irmã e Francis, mas a verdade era que, ele estava ansioso para obter de Francis a placa de ouro e joias que haviam sido dadas ou prometidas à Rainha por Luís, além do reembolso das despesas de seu casamento com o rei.
O casal Maria e Brandon, enfrentou as dificuldades, e realizou uma cerimonia de matrimônio privada. Suffolk então, anunciou a Wolsey no dia 5 de março. Suffolk apenas foi salvo da ira de Henrique por Wolsey, e os dois finalmente concordaram em pagar a Henrique £ 24.000 em parcelas anuais de £ 1000, e todo o dote de Maria de seu casamento anterior, de £ 200.000, juntamente com suas jóias. Eles casaram-se novamente em uma cerimonia aberta em Greenwich, no dia 13 de maio. O duque já havia casado-se duas vezes, com Margaret Mortimer e Anne Browne, a quem havia sido prometida em casamento antes de seu casamento com Margaret Mortimer. Anne Browne morreu em 1511, mas Margaret Mortimer, de quem ele havia obtido o divórcio no chão de consangüinidade, ainda estava viva. Ele conseguiu, em 1528, uma bula do Papa Clemente VII assegurando a legitimidade de seu casamento com Maria Tudor, e das filhas de Anne Browne, uma das quais, Anne, foi enviada para à corte de Margarida de Sabóia.
Após seu casamento com Maria, Suffolk viveu por alguns anos longe da vida na Corte, mas ele esteve presente no campo do pano de ouro em 1520, e em 1523 ele foi enviado para Calais para comandar as tropas inglesas. Ele invadiu à França em companhia de Conde de Buren, que estava à frente das tropas flamengas, e devastaram o norte da França, mas desfez suas tropas com a chegada do inverno. Suffolk foi inteiramente à favor do divórcio de Henrique e Catarina de Aragão, e apesar das suas obrigações para com Wolsey, ele não hesitou em atacá-lo quando sua queda tornou-se iminente. O cardeal, que estava familiarizado com a história particular de Suffolk, lembrou-o de sua ingratidão : “Se eu, um simples cardeal, não tive, você não deve ter tido, até o presente momento, uma cabeça sob seus ombros, entretanto, deve ter tido uma língua para fazer tantos relatórios a despeito de nós…”
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Henry Brandon, filho de Charles Brandon, morto vítima da doença do suor malígno.
Após a desgraça de Wolsey, Suffolk subia nas graças da corte diariamente. Ele foi enviado juntamente com o duque de Norfolk para exigir o Grande Selo de Wolsey, os mesmos nobres que transmitiram a notícia do casamento de Ana Bolena e Rainha Catarina, atuaram como altos comissários nas coroações das novas rainhas. Suffolk, foi um dos comissários nomeados por Henrique para afastar Catarina Howard de seus cargos reais, uma tarefa que ele achou de bastante mau gosto. Ele apoiou a política eclesiástica de Henrique, e recebeu uma grande parcela dos saques após a supressão dos monastérios. Em 1544, ele comandou pela segunda vez o exército inglês para a invasão na França. Ele morreu em Guildford no dia 24 de Agosto do ano seguinte.
Após a morte de Maria Tudor, no dia 24 de junho de 1533, ele havia casado em 1534 Catherine (1520-1580), Baronesa Willoughby de Eresby em seu próprio direito, em seguida, com uma menina de quinze anos. Suas filhas de seu casamento com Anne Browne foram Anne, que casou-se primeiro com Edward Grey, Lord Powys, e após a dissolução desta união, Randal Harworth, Mary (b.1510), casou-se com  Thomas Stanley, Lord Monteagle. Com  Maria Tudor, eles tiveram Henry, Conde de Lincoln (1516-1634); Frances, que casou-se com Henry Grey, Marquês de Dorset, e tornou-se a mãe de Lady Jane Grey, e Eleanor, que casou-se com Henry Clifford, segundo Conde de Cumberland. Por Katherine Willoughby ele teve dois filhos, Henry (1535-1551) e Charles (c.1537-1551), Duques de Suffolk. Eles morreram da doença do suor com uma hora de diferença do outro. Seu tutor, Sir Thomas Wilson, compilou um livro de memórias deles, Vita et Obitus Duorum Fratrum Suffolcensium(de 1511)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

HENRIQUE VIII, O PAPA E A REFORMA

Henrique VIII, antes de se proclamar o Chefe da Igreja na Inglaterra, foi um católico romano fervoroso. Ele chegou mesmo a escrever um livro atacando as idéias de Martinho Lutero (A Defesa dos Sete Sacramentos), recebendo, por esse motivo, o título de “Defensor da Fé” do papa Leão X. Segundo o historiador Frank Dwyer, ele separou-se da igreja romana após ter sido “constantemente ludibriado e passado para trás por reis, papas e imperadores da Europa”.
Henrique VIII continuou católico após romper com Roma, razão pela qual a igreja anglicana conservava a dogmática romanista, tendo, porém, o rei como o seu chefe. Foi somente depois da morte de Henrique VIII que chegou plenamente a Reforma para a igreja da Inglaterra. Examinaremos aqui os eventos ligados à vida de Henrique VIII e a sua relação com a igreja romana. Em seguida, consideraremos a evolução posterior do anglicanismo.

HENRIQUE VIII E A IGREJA ROMANA

            Henrique VII (pai de Henrique VIII) prometeu casar Arthur (o seu filho mais velho e herdeiro legítimo do trono) com Catarina de Aragão (filha do rei Fernando da Espanha). O objetivo dessa união era selar a aliança entre seus pais (os reis da Inglaterra e da Espanha) contra um inimigo comum, o grande rei Luís XII, da França. O futuro filho do novo casal, por outro lado, poderia garantir a participação inglesa nos destinos da Europa.
            O casamento se deu em 04 de novembro de 1501. No cortejo que levava Catarina para a Catedral de São Paulo, onde se casaria com Arthur, estava Henrique (que viria a ser Henrique VIII), irmão de Arthur. Ele era cinco anos mais novo que Catarina.
            A mãe de Catarina era Isabel de Castela, uma mulher profundamente católica. Isabel tanto queria promover as luzes do Renascimento como as trevas da Inquisição. O rei Fernando (pai de Catarina), para não ser ameaçado pela França, casara as filhas com dois filhos de reis (o de Portugal e o da Inglaterra) e com a família do Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.
            Em abril de 1502, houve a súbita morte de Arthur, irmão de Henrique e esposo de Catarina de Aragão. A rainha Isabel queria que Henrique substituísse Arthur, casando-se com Catarina. Os cânones da igreja, porém, baseados no Velho Testamento (Levítico 20: 21), não permitiam aquele enlace. O papa Júlio II, entretanto, politicamente interessado naquela união, deu autorização especial para o casamento. Em 1511, esse mesmo papa organizaria uma “Sagrada Aliança” com a Espanha contra o rei francês.
            O casamento de Henrique com Catarina deveria se dar quando ele tivesse 15 anos. Lembramos que Catarina era cinco anos mais velha que ele. Frank Dwyer observa que Henrique ficou em isolamento obrigatório até completar os 15 anos:

            “O isolamento do príncipe Henrique, no Palácio de Richmond, em Surrey, foi ainda mais severo do que o de Catarina. O menino era estreitamente vigiado por seu nervoso pai, que fazia todo o possível para manter a última esperança da linha Tudor...”[1]

            Um dia antes de seu 14o aniversário, o príncipe Henrique compareceu ao Conselho Privado (formado por assessores do rei) e repudiou secretamente a sua promessa de casar-se com Catarina. “Embora nem a Espanha nem Catarina soubessem disso até muito mais tarde, o contrato de casamento fora unilateralmente anulado pelos ingleses”(Frank Dwyer).
            Com a morte do pai, Henrique saiu do confinamento, tornando-se Henrique VIII e casando-se com Catarina, que tinha 23 anos. Nesse período, ele dividia a sua vida entre a igreja e o jogo. Chegava a ouvir até cinco missas por dia, ao mesmo tempo em que se divertia nos banquetes e nos jogos de dados e cartas.
            Quando o papa Júlio II fez uma aliança com a Espanha e Veneza contra o rei Luís XII da França, ele enviou uma bula secreta nomeando Henrique VIII rei da França caso aquele país fosse conquistado, enquanto o rei Fernando (Espanha) prometia ajudar Henrique a conquistar a Aquitânia, região francesa que já havia pertencido aos ingleses. Essas promessas eram condicionadas ao apoio de Henrique na luta contra a França. Henrique entrou na luta e teve destacadas vitórias, mas foi enganado tanto pelo papa como pelo rei Fernando.
            Henrique VIII firmou o Tratado de Lille com Fernando e Maximiliano, para, com o apoio deles, conquistar a França, mas foi novamente traído, pois, dez dias depois, ambos passaram a negociar secretamente com a França. Essa era a terceira vez que o pai de Catarina (esposa de Henrique VIII) traía o rei inglês. Ele mal podia acreditar.
            Dentro da Inglaterra, crescia o poder Thomas Wolsey. Ele era um padre ambicioso que conquistara várias honrarias, sendo finalmente Lord Chanceler da Inglaterra. A cada novo título, ele via crescer a sua fortuna. Em 1515, o papa Leão X nomeou Wolsey cardeal. Depois, ele foi nomeado núncio papal.
            Henrique VIII, revoltado com as traições da família de Catarina e, interpretando que o papa não poderia ter autorizado o seu casamento com ela, questionava a validade de seu matrimônio, desejando casar-se com Ana Bolena. O rei entendia ser um castigo divino o fato de Catarina não lhe ter dado um filho do sexo masculino, embora sentisse orgulho de sua filha Maria, a qual “nunca chorava”. Mais tarde, após a morte de Henrique VIII e de seu imediato sucessor, Maria reinaria tiranicamente sobre a Inglaterra. Ela procuraria levar a Inglaterra de volta ao catolicismo, martirizando muitos protestantes, e ficando conhecida como “Maria, a sanguinária”.
            Wolsey pretendia montar um tribunal secreto para anular o casamento do rei com Catarina, mas Carlos, o mais poderoso monarca da Europa, sobrinho de Catarina, não aceitaria tal coisa. Carlos também tinha o papa nas suas mãos. Em 1527, um exército alemão indisciplinado havia saqueado Roma e o papa, fugindo por um túnel que ia do Vaticano até a fortaleza do Castelo de Santo Ângelo, caíra nas mãos de Carlos. Wolsey, então, preferiu desfazer o tribunal secreto.
            Henrique enviou um pedido de anulação de seu casamento ao papa ao mesmo tempo em que Carlos defendia a causa de Catarina perante o papa Clemente. Wolsey defendia que a autorização que o papa Júlio dera para o casamento fora errônea.
            O papa Clemente, um esperto, usou todos os meios para protelar a decisão. Chegou mesmo a dar aos embaixadores de Henrique uma autorização para que este casasse com Ana Bolena, mas era um engodo, pois a autorização só teria efeito depois que o casamento com Catarina fosse declarado ilegal.
            Em 1528, a Inglaterra declarou guerra ao Sacro Império (Carlos). Por outro lado, o papa iniciou negociações de seu interesse com Carlos.
            O papa Clemente nomeou uma comissão geral com Wolsey e Campeggio para julgar o caso de anulação do casamento de Henrique na Inglaterra, sem haver apelação para o seu veredicto. Era uma nova cilada: a confirmação do veredicto papal não estava garantida.
            Na medida em que os exércitos de Carlos dominavam a Europa, o imperador obtivera do papa a promessa secreta de que a anulação do casamento de Henrique não aconteceria. Os melhores argumentos de Catarina eram os poderosos exércitos de seu sobrinho e o Tratado de Barcelona, que o papa assinara com Carlos.
            Henrique VIII terminou casando secretamente com Ana Bolena antes da decisão papal acerca da anulação de seu primeiro casamento. A oposição do papa ao novo casamento causou a ruptura da igreja inglesa com Roma. O parlamento inglês, então, reconheceu o rei como Chefe da Igreja da Inglaterra.
            O Parlamento inglês de 1529-1536 já vinha elaborando uma série de leis que vinham separando gradualmente os laços entre a Igreja Inglesa e Roma. Isso culminou no Ato de Supremacia (1534), que declarou o rei como “o único Supremo Cabeça na terra da Igreja da Inglaterra”. Era um retorno ao princípio medieval do “príncipe piedoso”.
            Depois de romper com o papado, Henrique VIII continuou defendendo a doutrina da transubstanciação e muitas outras doutrinas católicas. Ele perseguiu severamente os protestantes, bem como os católicos que não reconheciam a sua posição de chefe da igreja. Aos protestantes, ele dava a morte na fogueira, conforme a prática romanista. Entre os católicos mortos por Henrique, estava o seu ex-amigo Thomas More, o qual havia perseguido severamente muitos protestantes. Tony Lane observa que é difundida a falsa idéia de que o reformador João Calvino era um ditador em Genebra, mas a verdade é que Calvino nunca foi líder político em Genebra, enquanto Thomas More (tido como “santo”), sob a autoridade do ainda católico romano Henrique VIII, gerenciou forte perseguição e tortura contra muitos protestantes.
            Os protestantes da Europa não confiavam em Henrique VIII. Frank Dwyer observa:

            “Procurando aliados desesperadamente, Henrique fez alguns acenos para os líderes protestantes da Alemanha, que tinham se reunido na Liga de Schmalkalde. Mas os luteranos mostraram-se frios para com o monarca em perigo e que, afinal de contas, não era um verdadeiro protestante. Eles sabiam que o rei inglês não estava interessado em servir a nenhuma religião... Martinho Lutero chamara o divórcio de ‘um crime aos olhos de Deus’. ‘O senhor Henrique pretende ser Deus e fazer o que quiser’, observara Lutero com desdém.”
            “Enquanto o Parlamento, habilmente manobrado por Cromwell, tentava impedir a difusão do protestantismo radical na Inglaterra, Henrique, para garantir uma aliança, fingia estar cada vez mais interessado no luteranismo. Em maio de 1539, o Parlamento aprovou a  Lei de Seis Artigos, a codificação dos princípios básicos da Igreja Anglicana, que pôs fim às reformas luteranas na Inglaterra. A Igreja Anglicana mantinha a maior parte da doutrina católica; a diferença era que a Igreja inglesa seria chefiada pelo rei, não pelo papa. No conflito central entre o catolicismo e o luteranismo em relação à transubstanciação, Henrique aderia à posição católica de que o pão e o vinho da comunhão milagrosamente transformavam-se no corpo e sangue de Cristo durante a missa. Qualquer discordância dessa crença era sujeita a punição – Henrique não estava disposto a tolerar o protestantismo radical.”[2]

            Depois de uma sucessão de novos casamentos, em 12 de julho de 1543, Henrique VIII casou-se com a sua sexta esposa. Ela chamava-se Catarina Parr. Frank Dwyer comenta o seguinte sobre o fato:

            “Foi o casamento mais sensato que fez em sua vida. Catarina Parr era uma mulher extremamente boa, generosa e tolerante. Como resultado de seus persistentes esforços, os três filhos do rei reuniram-se na casa do pai pela primeira vez. Ana Cleves também ia ocasionalmente jantar com Henrique e Catarina. A nova rainha, uma protestante erudita, adorava as atividades piedosas. A corte de Henrique logo brilhou novamente com a alegre busca do conhecimento...”[3]

            Catarina Parr, com muito esforço, conseguiu reconciliar Henrique com as filhas (Maria e Elisabete). Ela passava muito tempo discutindo assuntos teológicos com o rei. O seu objetivo era persuadir Henrique a abraçar o protestantismo. Isso alarmou muitos clérigos. Carolly Erickson disse que “a sua dedicação à purificação da Igreja era persistente e sincera”.
            Catarina Parr e o seu círculo protestante conseguiram levar Henrique às primeiras iniciativas em direção à Reforma na Igreja Anglicana. Isso, entretanto, aconteceu em meio a muitas tensões e recuos de Henrique. O bispo de Winchester, Stephen Gardiner, um dos principais ministros de Henrique perseguia com violência os protestantes. Ele foi o responsável por Ana Askew ser queimada como herege. Askew, que tinha a simpatia das damas da rainha, foi queimada por não crer na transubstanciação. Gardiner chegou mesmo a acusar a rainha de heresia e persuadiu Henrique a assinar uma denúncia secreta contra ela. O rei, porém, mudou de idéia na última hora e tomou a defesa da esposa quando vieram prendê-la.

            REFORMA E RETORNO DO CATOLICISMO

            Henrique morreu em 28 de janeiro de 1547. Eduardo VI, o seu jovem e enfermo filho, tornou-se o rei. Ele foi considerado o primeiro monarca protestante da Inglaterra. Nessa época, a Igreja Anglicana aderiu à Reforma e formulou o Livro de Oração Comum. Pelo Ato de Uniformidade, ele aboliu o rito católico a favor do serviço protestante. Eduardo VI morreu logo de tuberculose, dando oportunidade de Maria (a sanguinária) ascender ao trono.
            Maria era católica e usou a posição de chefe da Igreja Anglicana para restaurar o catolicismo e promover uma sangrenta perseguição aos protestantes. Depois de seu governo, a Inglaterra criou uma aversão à idéia de retorno ao catolicismo.

            PROTESTANTISMO MODERADO E PURITANISMO

            Depois de Maria, Elisabete I, a Rainha Virgem, assumiu o trono. Essa foi a Era Dourada inglesa. Elisabete restaurou o protestantismo, mas numa via moderada.
            Em período posterior, houve novas concessões parciais à doutrina católica com Carlos I. A Revolução Puritana, porém, restaurou o protestantismo clássico de uma forma radical. Novas tendências católicas vieram quando os sucessores de Carlos I reassumiram o trono. Da Revolução Gloriosa até o Movimento de Oxford prevaleceu o protestantismo ortodoxo com variantes ocasionais. Até hoje dentro do anglicanismo, há tendências católicas herdadas de Henrique VIII (e de Maria, a sanguinária), tendências protestantes clássicas herdadas do período de Eduardo VI e tendências protestantes moderadas herdadas de Elisabete I. O liberalismo teológico, com o seu ceticismo e amoralidade, têm sido, porém, a grande ameaça dentro do anglicanismo contemporâneo.

            CARACTERÍSTICAS ANGLICANAS

            Embora o rei (ou a rainha) seja “o Chefe da Igreja da Inglaterra”, nunca foi reivindicada a infalibilidade em assuntos doutrinários para o rei (diferentemente do que acontece com o papado). Os documentos do anglicanismo fazem apelo às Escrituras como autoridade final em assuntos espirituais. Além disso, o rei apenas representa simbolicamente a unidade da igreja. A sua “chefia” é no campo institucional, não doutrinário. São os bispos primazes, principalmente o arcebispo da Cantuária, que definem a fé anglicana.
            Henrique VIII não fez a Reforma, mas separou de Roma a Igreja da Inglaterra. Isso abriu as portas para ações dos verdadeiros reformadores.
Para os anglicanos, a Igreja da Inglaterra não se separou do papado, mas, sim, se libertou dele. A Bretanha foi evangelizada por pregadores celtas que nada sabiam sobre o primado do bispo de Roma. Até o calendário religioso e a data de celebração da Páscoa dos bretões eram diferentes dos da Igreja Romana até o século VII. Foi no Sínodo de Whitby (663-664) que o rei de Northumbria impôs aos ingleses a submissão às sentenças do papa.
            Na Idade Média, a Inglaterra teve muitos movimentos que defendiam as doutrinas que, depois, foram sustentadas pelo protestantismo. Destacamos aquele liderado por John Wycliffe, para quem o papa era o próprio Anticristo. Também lembramos o franciscano Guilherme de Ockham como outro religioso inglês que questionou a autoridade que o papa reivindicava.

O Guarda Roupa de Henrique VIII








REQUINTE O departamento encarregado das vestimentas de Henrique VIII ocupava um prédio à beira do rio Tâmisa
A vida de Henrique VIII (1491-1547), o monarca inglês que fundou a Igreja Anglicana, sempre despertou atenção de historiadores, súditos e, claro, dos estúdios cinematográficos. Dos antigos representantes da nobreza anglicana, ele é um dos nomes mais conhecidos no mundo, ao lado de Elizabeth 1, sua filha. Parte de sua notoriedade se deve justamente à ousadia de ter desafiado o papa Clemente VII e ter se casado de novo, trocando Catarina de Aragão pela amante Ana Bolena. Excomungado, ele rompeu com o Vaticano e criou a nova religião. Por sinal, Henrique VIII é também famoso por seus seis casamentos e pela execução de duas de suas esposas, entre elas a própria Ana Bolena. Mas agora sua enérgica figura ganha contornos inusitados. Um livro recém lançado na Inglaterra, Dress at the court of King Henry VIII (A moda na corte de Henrique VIII), da historiadora Maria Hayward, mostra que o rei era vaidoso a ponto de contar com uma equipe firmemente dedicada a abastecer seu guarda-roupa com as peças e tecidos mais finos e luxuosos que havia no período. No caso, não se trata apenas de enriquecer o acervo do closet real. O monarca tinha a seu dispor um departamento chamado o Grande Guarda-Roupa, que abrigou cerca de 700 itens.
Vestir-se com apuro pode parecer uma característica natural da nobreza. Mas a verdade é que a coroação de Henrique VIII, à beira dos 18 anos, trouxe um ar menos conservador. Durante o reinado de seu pai, Henrique VII, a moda palaciana era mais austera. O velho rei não desperdiçava dinheiro. Muito pelo contrário.Quando o jovem Henrique subiu ao trono, houve uma profunda mudança da vida na corte. O novo monarca gostava de caça, tênis, música, dança e vinho. Era extravagante e espalhafatoso. Ao assumir a coroa, Henrique VIII aumentou as despesas com vestimentas pessoais, trajes cerimoniais, sapatos, chapéus e acessórios. “As roupas eram muito importantes para ele. Havia dias especiais em que usava roxo e escarlate”, diz Maria. O rei também estimulou o convívio da nobreza com artistas e designers, atento à bela impressão que sua suntuosa corte causaria no mundo.
Poucos anos depois, os jovens príncipes da França e da Espanha viraram reis e aumentaram o luxo palaciano, passando a concorrer com Henrique VIII. O monarca inglês incrementou ainda mais o guarda-roupa real. Para Maria Hayward, pesquisadora do Textile Conservation Centre(instituição da Universidade de Southampton que estuda conservação de tecidos), tal esmero foi uma maneira de ressaltar a supremacia de Henrique VIII entre os nobres europeus. O departamento de guarda-roupa, portanto, recebeu um papel especial. “Vestimentas têm sido estudadas como um exemplo de sistema semiótico”, aponta Maria. Em outras palavras, coube ao arsenal de tecidos, peles e forros a missão de transmitir a mensagem de que Henrique VIII brilhava mais do que os demais.
Com isso, o Grande Guarda-Roupa conquistou mais prestígio. Suas dependências ocupavam um prédio nas cercanias do castelo de Baynard, em Londres, perto do rio Tâmisa. Havia quatro pessoas que exerciam funções vitais no departamento: o alfaiate do cerimonial, o “porteiro” (uma espécie de controlador do acesso ao depósito de tecidos), o caixeiro (que mexia com o orçamento) e o mantenedor (encarregado de lidar com mercadores, comprar roupas e até cuidar para que uma peça não mais desejada deixasse de ocupar um espaço precioso). Os responsáveis pelo departamento faziam inventários tanto do material usado para fazer as roupas quanto dos acessórios, além de anotar a entrada e a saída de dinheiro.
ACERVO As roupas reais não resistiram ao tempo. De Henrique VIII restam armaduras
Essas listas nortearam a pesquisa de Maria, que se dedica ao estudo dos Tudors – a dinastia de Henrique VIII – desde 1990. Os apontamentos demonstram que foram gastos quatro xelins nas “botas para futebol”. Um valor considerável. Uma babá para os meninos da corte recebia dez xelins por semana. As botas de couro, costuradas manualmente por Cornelius Johnson, em 1525, foram encomendadas porque sua majestade desejava disputar uma antiga versão de futebol, então um esporte extremamente agressivo, nada indicado para cavalheiros. Junto com o pedido, foram solicitados mais dez pares de calçados de couro e 38 pares de sapatos de veludo nas cores roxo, preto e carmim, entre outros acessórios.
As listas disponíveis não compreendem todo o reinado do fundador da Igreja Anglicana. Nenhuma das peças do Grande Guarda-Roupa de Henrique VIII sobreviveu ao desgaste dos séculos. De seu acervo pessoal restam algumas armaduras. Uma análise dos retratos do rei, no entanto, dá o tom do garbo da corte. As imagens estampam um Henrique VIII fora de forma, mas a riqueza dos tecidos, os delicados bordados nas vestes e a profusão de adereços pedras preciosas denotam que a mensagem de poder e luxo atravessou os tempos

domingo, 16 de agosto de 2015

A mudança de Temperamento do Rei Henry VIII

Henrique VIII casou-se seis vezes, mandou decapitar duas esposas, rompeu com a Igreja Católica, fundou o anglicanismo e morreu obeso, vítima de uma doença até hoje desconhecida. Juntos, os fatos o alçaram ao posto do mais misterioso — e fascinante — rei da história da Inglaterra. Do dramaturgo William Shakespeare a cineastas hollywoodianos, não foram poucas as pessoas que tentaram contar a trajetória do monarca da casa dos Tudors. Agora, a biografia de Henrique VIII ganha mais um detalhe, tão curioso quanto os demais. Ele seria portador de uma rara síndrome que afeta o sangue, o cérebro, o sistema nervoso e o coração.

Desde a infância, a bioarqueóloga Catrina Banks Whitley era apaixonada pela história dos Tudors. Depois de se especializar na ciência que estuda os restos mortais humanos encontrados em sítios arqueológicos e na paleopatologia, ramo que investiga antigas doenças, ela resolveu decifrar o segredo do rei. Em entrevista ao Correio, a pesquisadora conta que passou um ano discutindo os possíveis males que teriam afetado o monarca com a amiga Kyra Kramer, antropóloga médica e coautora do estudo.


“Pensamos em doenças, problemas reprodutivos e genética”, diz. “Como grandes fãs do seriado Os Tudors (exibido no Brasil pela tevê paga), frequentemente discutíamos sobre os capítulos. Depois do último episódio da segunda temporada, Kyra me perguntou: ‘Por que sempre as pessoas culpam as mulheres pela gravidez malsucedida? Para mim, está claro que quem tinha problemas era Henrique’”, relata.


Naquele semestre, Catrina ministrou aulas de evolução humana, disciplina que aumentou seu contato com a genética, especialmente com o fator Rh, associado à seleção natural e aos abortos espontâneos.


“Esse conhecimento me fez pensar em como a genética de Henrique poderia ter causado a falta de filhos”, conta. Em menos de 24 horas depois da discussão sobre o seriado, a pesquisadora veio com uma teoria: o sangue do rei era Kell positivo, condição que explicaria a incompatibilidade com o tipo sanguíneo das esposas. “Então, Kyra falou: ‘Agora, me conte o que foi que o deixou louco’. Respondi que ele poderia ser portador da síndrome de McLeod.”


Classificado como raro, o distúrbio é causado por mutações no gene XK do cromossomo X, responsável pela produção do antígeno Kell na superfície das células vermelhas.


A síndrome ocorre basicamente em homens e afeta não apenas o sangue, mas causa diversos problemas, como tensão involuntária dos músculos faciais, atrofia muscular, arritmias coronarianas e cardiomiopatia dilatada.


Os sintomas começam a aparecer na idade adulta e caracterizam-se pela mudança abrupta do comportamento, como ansiedade e depressão, podendo inclusive alterar a personalidade do portador. Com o passar dos anos, a tendência é o agravamento do quadro.


Mudança aos 40

De acordo com os principais biógrafos do rei, foi isso que aconteceu com o monarca. Se, na juventude, era considerado um jovem fanfarrão, mas também culto e interessado em teologia, aos 40 anos, completados em 1531, o rei começou a mudar. Antes dessa época, seus desafetos eram, no máximo, exilados. Mas ao alcançar essa idade, o Tudor passou a mandar executar qualquer pessoa cujas opiniões estavam em desacordo com as dele. Henrique VIII tornou-se paranoico e acreditava que quase todos tramavam contra ele. Chegou a crer que o grande amor de sua vida, Ana Bolena, o traía com Herny Norris, amigo de três décadas do rei, a quem mandou matar.

“Em seguida, houve a matança de seus parentes maternos, incluindo um primo que tinha crescido com ele na casa real, com quem compartilhou o quarto quando eram meninos. Foi o equivalente a matar um irmão”, relata Catrina. “Durante os cinco últimos anos de sua vida, ele constantemente preparava armadilhas para seus cortesãos e ministros caírem, incluindo um famoso incidente com Kateryn Parr. Ele chegou a ser saudado como um ‘amante da justiça e da bondade’, mas, na ocasião de sua morte, era considerado um tirano errático”, diz a pesquisadora.


Segundo o historiador David Starkey, especialista nos Tudor, havia “dois Henriques, o velho e o jovem”. O jovem era bonito, generoso, adorava esportes, música e venerava Catarina de Aragão. O velho quase não podia andar de tanta dor na perna — aliás, o primeiro sintoma da síndrome de McLeod —, alimentava ódios imaginários e colocou em risco a estabilidade de seu reino para casar com a amante.


Por muitos anos, os historiadores têm debatido teorias sobre doenças que possam ter explicado o declínio físico e mental de Henrique VIII, além do comportamento tirânico que caracterizou seus 40 anos de idade. Já se sugeriu que ele poderia ter desenvolvido diabetes tipo 2, principalmente por causa da súbita obesidade. “Mas essa doença não explicaria as mudanças de personalidade”, responde Catrina. Além disso, o diabetes poderia torná-lo infértil, o que não ocorreu. Henrique VIII engravidou suas esposas diversas vezes. O problema é que as gestações não iam adiante. “Há muitos debates sobre a loucura de Henrique VIII. Mas pouco se fala sobre as gestações malsucedidas de suas mulheres”, argumenta.


Filhos perdidos

De fato, depois de um aborto e de um bebê que viveu pouco mais de um mês, Catarina de Aragão e Henrique VIII chegaram a ter uma criança saudável. Mas era uma menina, chamada Maria, o que, para a linha sucessória, não adiantava nada. Segundo Catrina, em cada gravidez, há uma chance de 50% de a criança ser Kell negativa. “Maria pode ter tido sorte, herdando o sangue tipo negativo. Se foi assim, os anticorpos de Catarina não considerariam o sangue do feto como um corpo estranho que precisava ser atacado.

Dessa forma, a gravidez pode ter progredido normalmente, resultando em uma criança saudável”, justifica. Para a pesquisadora, se tivessem tentado mais vezes, talvez Henrique e Catarina conseguiriam dar à luz o sucessor do trono. Depois de Maria, o casal perdeu mais quatro crianças.


Do controverso casamento com a amante Ana Bolena, graças a quem Henrique VIII fundou o anglicanismo, nasceu um bebê saudável. Mais uma vez, uma menina. A irmã de Ana também havia sido amante do rei, com quem teve dois filhos, sendo um deles o sonhado herdeiro do sexo masculino. Porém, como o relacionamento era extraconjugal, as crianças não puderam ser reconhecidas. Henrique viu em Ana a esperança de ganhar um menino legítimo, que o sucederia na dinastia Tudor. O fim da história é conhecido: depois de diversos abortos espontâneos, a rainha foi acusada de traição e morreu decapitada.


O filho homem só viria do casamento com Joana Seymour, dama de companhia de Ana Bolena que se tornou amante do rei. No ano seguinte, a nova rainha deu à luz o príncipe Eduardo. O varão custou a vida de Joana, que morreu pouco depois do parto. Henrique VIII ainda se casou mais duas vezes, mas não teve mais filhos.


Para Catrina Whitley, somente uma doença rara com graves implicações para a saúde mental poderia explicar a súbita transformação do rei. “Ele não apenas se tornou irritável ou ficou com pavio curto. Henrique VIII tornou-se paranoico e irracional”, argumenta.


Apesar de todos os indícios, somente um teste de DNA poderia confirmar a suspeita de Catrina. Mas a exumação dos restos mortais do rei não está nos planos da monarquia da Inglaterra.


“É uma teoria bastante interessante, mas, sem evidências genéticas, não temos como saber se está correta”, disse ao Correio Retha Warnicke, historiadora da Universidade do Arizona e autora de uma biografia de Ana Bolena.


“Outras condições poderiam explicar o temperamento do rei. Ele pode ter ficado demente, por exemplo. Mas ‘pode’ é a questão. Embora a teoria da doença rara seja possivelmente verdadeira, não há como prová-la”, alerta.


Incompatibilidade

Além do Rh, existem outras substâncias nas hemácias que podem ser incompatíveis durante os cruzamentos das espécies. Um deles é o antígeno Kell. Quando a mulher é Kell negativo e o homem é positivo, a criança pode herdar a característica do pai. Nesse caso, o organismo da gestante enxerga o feto como um ser intruso e produz anticorpos para expulsá-lo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O jovem Henrique VIII – de bonito e educado para tirano


á 500 anos subia ao trono britânico o polêmico monarca que rompeu com a Igreja Ccatólica, fundou o anglicanismo, consolidou a era Tudor, e mandou decapitar duas de suas seis esposas

Por Rodrigo Gallo
Alguns homens realmente nasceram para liderar seu povo à glória e impor revoluções à sua época, seja pelas conquistas militares ou pela forma brilhante de administrar suas terras. Porém poucos compraram uma briga tão grande quanto Henrique VIII (1491-1547), o segundo rei inglês da dinastia Tudor, que simplesmente rompeu as relações entre o Estado e a Igreja Católica e fundou o anglicanismo, sua própria religião.
E nada mais foi igual no Reino Unido, nem no cristianismo. Polêmico por ter se casado seis vezes, Henrique VIII nasceu na cidade de Greenwich em 28 de junho de 1491 e assumiu o trono em abril de 1509, sendo oficialmente coroado em junho do mesmo ano. Assim, já se passaram cinco séculos desde o início de seu curioso reinado, rico em histórias de conspiração e traições conjugais. E sua maior contribuição para a História, sem dúvidas, foi a nova religião. Henrique VIII sucedeu seu pai, Henrique VII (1457-1509), que governou o país durante um período muito conturbado da história, de 1485 até sua morte, marcado por inúmeros problemas internos.
Formação do Estadoglês
O século XIV não foi muito bom para a Inglaterra. O país não tinha muita importância para a geopolítica européia e, por isso, era uma ilha isolada do restante do continente, cujo principal expoente era a França. Assim, o Reino Unido era uma nação praticamente sem muita relevância para as principais discussões políticas, que se concentravam ao redor de Roma, da Península Ibérica e dos franceses.
A virada de mesa começou a se esboçar durante o governo de Henrique VI (1421-1471), que nem era um monarca tão poderoso. Sua fraqueza levou a inúmeras disputas pela coroa inglesa entre sua casa real, a dos Lancaster (simbolizada pela rosa vermelha) e a dos York (representada pela rosa branca). Essas duas dinastias guerrearam durante 30 anos pelo poder na chamada Guerra das Duas Rosas. Politicamente instável ou não, o importante é que esse período abriu precedentes para a ascensão da Inglaterra nas décadas seguintes.
Bosworth Field: Aas disputas terminaram em 1485, quando Henrique desembarcou na Iinglaterra com 5 mil homens e marchou para depor o rei. Oos dois se encontraram nesta batalha
Com a morte de Henrique VI e, posteriormente, de Eduardo IV (1442-1483), da família Lancaster, um menino de 12 anos foi coroado rei, sendo assassinado pouco depois pelo tio, que usurpou o trono. Portanto, as brigas sucessórias continuaram por mais um tempo.
Esse impasse só terminaria mais tarde, com a aparição do conde de Richmond (1430-1456), um bastardo da dinastia Lancaster. Henrique Tudor, pai de Henrique VIII, acabou sendo proclamado príncipe legítimo pelo Parlamento e foi casado com Elizabeth de York (1466-1503), filha de Eduardo IV, para dar forças às suas pretensões.
Naquele período, era comum que os matrimônios fossem arranjados de acordo com os interesses políticos. Mesmo assim a tarefa do novo rei não seria fácil. Antes de consolidar o poder, deveria combater e derrotar Ricardo III, um grande opositor para a desejada paz e estabilidade.
Depois de muitos conflitos, o Tudor venceu o adversário na famosa batalha de Bosworth Field. Em 1485, o jovem general desembarcou na Inglaterra com um exército de cinco mil homens, marchando imediatamente contra Ricardo, que possuía cerca de dez mil soldados. No entanto, Henrique saiu vitorioso do combate, após horas de conflitos, e o adversário foi morto.
A vitória dos Tudor
O desfecho da batalha de Bosworth Field levou ao fim as disputas dinásticas iniciadas na Guerra das Duas Rosas e inaugurou oficialmente a gloriosa era Tudor. A rosa branca foi incorporada à vermelha, unindo os Lancaster e os York, formando um novo símbolo, a rosa dos Tudor. Entretanto a situação ainda não era das mais favoráveis e o novo rei deveria buscar formas de impedir mais problemas sucessórios.
Para manter o poder estável e evitar o enfraquecimento do trono (que poderia levar a uma nova guerra dinástica), decidiu tomar medidas cada vez mais rígidas para garantir a hegemonia. Com isso, controlou o país de forma enérgica, manteve o caixa do Estado em ordem, cortou gastos públicos desnecessários e criou uma reserva de capital para usar em situações de emergência. Por tudo isso, ganhou a fama de ser avarento.


Além disso, Henrique VII também se afastou dos senhores feudais, já em decadência, e aproximou- se da burguesia crescente, que certamente seria uma classe social importante para manter a harmonia no solo inglês e dar estabilidade política e econômica ao país.
Mas, novamente, o problema da sucessão voltou a incomodar os ingleses, já que muitos discutiam a legitimidade de Arthur, herdeiro de Henrique VII, que era filho de um Lancaster e de uma York, ou seja, de dinastias rivais. Mesmo assim, o garoto foi criado para ser rei e teve de se casar com Catarina de Aragão (1485-1536), herdeira da coroa espanhola, em 1501. Além de unir os dois países em uma aliança política, esse matrimônio também previa ajuda no campo militar, pois o poder de Luís XII crescia na França e isso preocupava o restante da Europa.
Porém ocorreu um grande problema na casa Tudor. Cerca de cinco meses depois do casamento, Arthur morreu provavelmente de tuberculose, ainda sem deixar herdeiros. Além dele, outros dois garotos da família real já haviam morrido na infância, aumentando os temores. E o único filho homem ainda vivo era o futuro rei Henrique.
Henrique VIII em cena
Com isso, em 1502, o jovem herdou os títulos e a esposa do irmão, que se tornou sua noiva. "Pelo direito canônico, ela não poderia se casar com o cunhado, mas foi uma concessão autorizada por Roma para não romper as alianças entre Inglaterra e Espanha firmadas por aquele matrimônio de Arthur", explica o teólogo Lauri Emílio Wirth, professor da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). Henrique VII morreu em 21 de abril de 1509 e sua morte foi mantida em sigilo até o dia 23, quando o último dos herdeiros, Henrique VIII,foi proclamado sucessor ao trono.
Essa foi uma forma encontrada para evitar que o falecimento do monarca desse tempo para os adversários prepararem um levante contra os Tudor. E esse ardil deu certo, pois nenhuma rebelião ocorreu. Entretanto alguns conselheiros reais não acreditavam que um jovem com pouca experiência militar e política pudesse dar conta de uma nação tão conturbada. Ainda mais que o pai tinha conseguido manter o país em ordem.
O receio era de que todas as importantes conquistas de Henrique VII fossem perdidas durante a gestão de Henrique VIII. Em 11 de junho de 1509 o garoto, então com 18 anos, casou-se com Catarina de Aragão, conforme o pai havia pedido. Em 24 de junho, o casal foi coroado oficialmente na abadia de Westminster, em Londres, em meio a comemorações e bailes que duraram dias. Era o início das mudanças mais importantes para a história da Inglaterra até então.
As mulheres de Henrique VIII
Henrique viii teve seis esposas e quase todas tiveram um destino trágico. Segundo a historiadora e biógrafa inglesa antonia Fraser, autora de As Seis Mulheres de Henrique VIII (Editora record), Catarina de aragão, ana Bolena, Jane Seymour, ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr ficaram conhecidas na história como, respectivamente, a divorciada, a decapitada, a morta, a segunda divorciada, a segunda decapitada e a sobrevivente. Seis mulheres e igual número de destinos tristes.
Todas tiveram casamentos arranjados com o monarca Tudor e não conseguiram encontrar felicidade ao lado do rei anglicano. Essa era a sina de viver ao lado do chefe de Estado mais polêmico da inglaterra. No livro, antonia Fraser também relaciona as esposas do Tudor a outros apelidos não menos pejorativos, que eram ditos nos corredores da corte, na época: Catarina de aragão era a esposa traída, pois fora trocada pelo monarca; ana Bolena era a tentadora, pois levou Henrique viii a se desfazer da esposa anterior; Jane Seymour era a boa mulher, jovem, linda e atraente; ana de Cleves era a irmã feia, pois tinha cicatrizes de varíola no rosto e, dizem, nunca deixou de ser virgem (suas núpcias com o rei nunca se consumaram); Catarina Howard era a moça má, pois traiu o monarca inglês com inúmeros homens, até que foi executada; por fim, Catarina Parr ficou conhecida como mãe, pois esteve ao lado do marido até sua morte. a pesquisadora ressalta que as mulheres de Henrique viii tinham uma personalidade forte, mas que tombaram vítimas da obsessão do rei por um herdeiro homem, algo muito importante para os monarcas da época. mesmo sem encontrar a felicidade e a paz, as seis esposas do Tudor entraram para a História junto com o marido em um dos períodos mais marcantes para a inglaterra.


A cisão com o Vaticano
Fluente em francês e latim, além de conhecedor de italiano e grego, o brilhante Henrique VIII passou a se interessar cada vez mais por Teologia. Foi, inclusive, condecorado pelo papa Leão X após ter escrito um livro atacando Martinho Lutero, autor de inúmeros conceitos reformistas. Esse é mais um ponto irônico na história do jovem Tudor, já que, pouco depois, ele mesmo romperia definitivamente as relações entre o Estado e o Vaticano.
A questão é que surgiu a necessidade de se divorciar de Catarina de Aragão e encontrar uma nova esposa. E, novamente, tudo tinha relação com os velhos problemas de sucessão. O casal não conseguia ter um filho homem que sobrevivesse ao primeiro ano de vida, impedindo a transição natural da coroa.
A rainha, seis anos mais velha, já não era tão jovem e isso preocupava o monarca. Em 1520 começou a circular na corte inglesa a desconfiança de que ela, já na casa dos 40 anos, nunca teria um varão para suceder Henrique VIII. Em 1526, no entanto, o Tudor se apaixonou pela jovem Ana Bolena (1501-1536), uma ex-dama da rainha Cláudia de Valois da França.
Depois desse período na Europa central, ela regressou à Inglaterra e tornou-se funcionária da equipe de Catarina de Aragão (Ana Bolena não tinha descendência nobre). Anos mais tarde, por causa dessa paixão, viria a cisão com Roma. Henrique VIII tentou se divorciar de Catarina para se casar com Ana e ter filhos.
O papa Clemente VII, no entanto, não autorizou a separação, pois ia contra as leis do catolicismo. Mesmo sem a autorização papal, o Tudor passou a viver com Ana Bolena na corte e, no início da década de 1530, abandonou Catarina para viver definitivamente com a nova mulher, irritando cada vez mais o Vaticano.
Ana ficou grávida pouco tempo depois, mas o herdeiro seria ilegítimo, pois eles não eram oficialmente um casal. Eles se casaram em segredo em janeiro de 1533, mesmo com ele ainda tendo ligações com Catarina, e oficializaram o matrimônio em maio, quando o Parlamento inglês aprovou leis que invalidavam a união com Catarina. Esse aval dos parlamentares abriu espaço para Ana Bolena assumir de vez o seu lugar na corte.
Em julho do mesmo ano, porém, a fúria de Roma caiu sobre a casa Tudor e sobre o trono inglês. Clemente VII declarou esse matrimônio absurdo, excomungou o rei e exigiu o banimento de Ana Bolena da Inglaterra. Eram medidas duras que exigiram do monarca uma resposta enérgica. Brigas à parte, a criança nasceu, mas ainda não seria o tão sonhado herdeiro do trono. Ana Bolena deu à luz uma menina, Elizabeth. Mais uma vez, Henrique VIII não conseguia ter um filho homem. Muitos diziam que a blasfêmia do divórcio o condenara a não ter um sucessor. No entanto, os processos que corriam no Parlamento chegaram ao fim e o rei conseguiu finalmente o que queria: foi nomeado chefe supremo da nova igreja da Inglaterra, fundando o anglicanismo.
A na Bolena foi executada na Torre de Londres, local de execuções ordenadas pelo rei
A igreja Anglicana
Segundo o historiador inglês Gwilym Dodd, da Universidade de Nottingham, a principal diferença entre o reino de Henrique VIII e de seus antecessores é que, antes, a Inglaterra estava sujeita à autoridade e à influência do papado: o pontífice efetivamente era o "cabeça" do Estado. Depois, porém, o poder eclesiástico mudou de mãos, passando exclusivamente para o monarca Tudor. "Era o papado que determinava a estrutura teológica da religião na Inglaterra, como as interpretações da Bíblia, por exemplo.
Igualmente, significou que os bispos e arcebispos ingleses fossem indicados após a aprovação do próprio papa", explica o historiador, em entrevista exclusiva à Leituras da Hhistória. "Também durante toda a Idade Média, havia um número constante de clérigos que viajavam da Inglaterra para Roma, para levar alguma dispensa especial do papa. Isso acabou", afirma.
Depois das reformas do segundo monarca Tudor, no entanto, a igreja da Inglaterra quebrou as amarras com o papado e tornou-se independente, autônoma e comandada de forma separada de Roma. Henrique VIII se tornou efetivamente o líder da Igreja Anglicana, passando a dominar não apenas os assuntos de Estado, mas também os religiosos, o que permitiu que se casasse seis vezes com a bênção divina, algo completamente contrário aos preceitos do catolicismo. Contudo, Dodd afirma que algumas coisas pareciam imutáveis na estrutura religiosa, apesar da liberdade de casamentos e do fim dos vínculos com Roma.
Ou seja, as mudanças promovidas por Henrique não alteraram tudo, mas sim apenas algumas questões bastante pontuais. "O interessante é que, apesar das mudanças parecerem monumentais na superfície, em muitas áreas eram diferenças muito pequenas entre a igreja inglesa antes de Henrique VIII e a anglicana. Poucas mudanças do fundamento foram feitas: a maneira em que a adoração religiosa foi praticada sob Henrique VIII era a mesma.
As pessoas que iam às missas no período anglicano provavelmente olhariam e sentiriam muitas similaridades às missas das épocas católicas", diz. O Tudor não tinha problemas com os dogmas cristãos, mas sim com a onipresença dos papas e de sua influência política em toda a Europa. Ele queria, na verdade, tirar o poder de decisão das mãos do clero e concentrar em si mesmo. Segundo o teólogo Alderi Souza de Matos, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em História da Igreja, Henrique VIII rompeu com o poder do papa, mas não com a fé católica. Isso indica que não foi uma cisão puramente religiosa, mas sim política.

"Ele permaneceu firmemente católico até o fim de sua vida. No reinado de Henrique VIII, a Igreja da Inglaterra continuou a ser católica em tudo, exceto no que se refere à aceitação da autoridade do papa", explica ele, que é doutor pela Universidade de Teologia de Boston, nos Estados Unidos. As missas, por exemplo, continuaram a ser realizadas praticamente da mesma forma estabelecida por Roma. "Os dogmas e rituais católicos continuaram em vigor. O divórcio continuou proibido: no caso de Henrique, o que houve foi a anulação do casamento.
Foi somente após a morte de Henrique VIII que a Igreja Anglicana se tornou de fato protestante", diz Matos. Se era para mudar apenas um ponto, ou seja, a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, sua primeira esposa, por que o monarca tomou uma decisão tão brusca ao romper com o poder clerical de Roma? A resposta para essa questão é simples, segundo o teólogo Lauri Emílio Wirth: tudo também tinha relação com as questões econômicas. O Tudor queria deixar de pagar impostos a Roma, algo caro para os cofres da Inglaterra e para os demais países de orientação católica.
E a única forma de não recolher mais o tributo ao Vaticano era abandonar os vínculos com o catolicismo romano. Wirth explica que a questão é muito mais ampla do que aparenta e possui detalhes que poucos conhecem. O problema é que, por causa das inúmeras guerras civis, o Estado inglês tinha dívidas demais, e boa parte dos tributos recolhidos era encaminhada para Roma, mantendo os problemas financeiros. Mesmo superando os problemas iniciados na Guerra das Duas Rosas, a Inglaterra ainda tinha dificuldades internas, todas relacionadas à sucessão e às dívidas.
"O rompimento das relações entre Inglaterra e Roma trouxe um impacto econômico à corte inglesa, que passou a economizar com o não pagamento desses impostos", afirma Wirth. Além disso, havia ainda a questão da autoridade política. "A ruptura religiosa expressa um problema mais amplo, pois separou definitivamente a política da religião. É, portanto, uma ruptura política, pois ele tinha mais de 40 anos e não tinha filhos, o que comprometia a sucessão dinástica", esclarece o teólogo, doutor pela Universidade de Heidelberg, da Alemanha.
"Os dogmas e rituais católicos continuaram em vigor. O divórcio continuou proibido: no caso de Henrique, o que houve foi a anulação do casamento."
Alderi Souza de Mmatos
A questão é que a igreja anglicana é muito semelhante à católica apostólica romana, só que nacionalizada, ou seja, cujo centro não fica em Roma, mas sim na própria Inglaterra. "Durante o reinado de Henrique VIII há a nacionalização da igreja. O próprio rei tornou-se o chefe da religião", observa o teólogo. Essas mudanças, entretanto, não durariam para sempre. Henrique VIII morreu em 28 de janeiro de 1547, aos 55 anos, amparado pela sexta mulher, o que deu um novo rumo à História da Inglaterra.
Maria Tudor, tempos depois, "recatolizou" o Reino Unido e passou a perseguir os anglicanos. Esses religiosos tiveram que fugir da ilha para outros países, para evitar torturas e mortes terríveis. Os capturados foram condenados à morte, aumentando o temor por parte dos seguidores do antigo rei inglês. Esse retorno aos dogmas de Roma durou poucos anos, de 1553 a 1558. Depois, Elizabeth I retomou os hábitos protestantes.